A Luz dos Aboim

07/05/2012

Balanço

Filed under: SLB — Etiquetas:, , , — ivo980 @ 20:33

(Antes de mais, fica a penitência pelos longos meses de ausência, enquanto colaborador activo  deste blogue)

Agora que cai o pano sobre mais uma época futebolística (e não só), deixo aqui a minha perspectiva sobre o que aconteceu.  No que diz respeito à nossa equipa de futebol, ainda que o enredo não tenha sido muito diverso do da época anterior, existiram algumas “nuances” que me parecem decisivas.

Erros próprios? Vários. Do meu ponto de vista os erros foram essencialmente do Jorge Jesus, parece-me indiscutível. A dada altura da época parecia ser um treinador que tinha aprendido com os erros, menos gabarolas, com uma gestão mais inteligente do plantel – que diga-se, era bastante melhor do que o do ano passado. Mas não, os erros acabaram por ser os mesmos.

A já gasta questão do Emerson/Capdevila é, obviamente, o exemplo mais gritante. Essencialmente por demonstrar arrogância e prepotência por parte do técnico, mais preocupado em provar que estava certo, do que com os superiores interesses do Benfica. Para além da inquestionável qualidade do internacional espanhol, e da mediania evidenciada por Emerson (ainda assim o menos culpado nesta questão), tornou-se ridículo ver o brasileiro em sérias dificuldades físicas e anímicas, ser consecutivamente lançado às feras de três em três dias, só porque “Jesus é que sabe”.

Qual o motivo para terem desaparecido jogadores como Nolito, Saviola, Matic? O espanhol, ainda que tenha perdido algum gás, sempre se revelou incoformado, e mais do que isso, a provar “estatisticamente” a sua utilidade, com inúmeras assistências e golos. Matic não começou bem, mas cumpriu sempre, e em várias partidas teria permitido ao Javi o merecido descanso. Saviola? É o Saviola! Ainda que também tenha tido alguns jogos mais cinzentos, é um jogador de topo, habituado a responder perante a pressão. É certo que o Nélson Oliveira é dos nossos e tem um tremendo potencial, mas “passar à frente” do Saviola, de forma tão persistente, pareceu-me precipitado.

Segundo rezam as crónicas, JJ é o treinador mais bem pago de sempre, no futebol português. Com isso, vem maior responsabilidade e naturalmente, maior exigência. Ainda que defenda total liberdade para o treinador, acho que devia existir alguém na estrutura que o chamasse à atenção.

Rui Costa, onde anda? O que faz efectivamente? O Carraça? “Blinda o balneário”? Isso é profissão? Continua a existir muita confusão na estrutura do futebol benfiquista.

Tudo isto é culpa nossa. Tudo isto contribuiu para perder o título, para uma equipa vulgar, treinada por um zero à esquerda. Mas não foi só isto.

Sou da opinião que quando uma equipa fica a muitos pontos do primeiro lugar, não deve ter moral para se queixar de nada (ver o caso dos nossos vizinhos), porque ninguém fica 16 pontos do primeiro posto por causa das arbitragens. Mas há quem fique a seis.

Tenho tido acesas discussões com amigos benfiquistas, para quem o facto de sermos prejudicados, “é normal”, “sempre foi assim”, “temos é de jogar dez vezes mais do que os outros”.

Eu não concordo, de todo. Não pode ser norma entrar numa competição e aceitar pacatamente que vamos ser prejudicados, e que teremos de conviver com isso resignadamente.

Se eu gosto de me queixar dos árbitros? Detesto! Tenho até alguma vergonha de o fazer, porque se tornou o refúgio dos incompetentes, dos fracos. (Sim, esses).

O certo é que, na altura fulcral do campeonato, fomos roubados de forma inqualificável. E para não alongar um texto que já vai longo, farei referência apenas ao jogo em Coimbra, com a Académica e em casa com o FC Porto. Mas creio que a jornada em que o Benfica foi a Vila do Conde empatar com o Rio Ave a duas bolas, é o resumo perfeito de uma época.

Em termos pontuais, a luta continuava. O Benfica tinha de vencer para acalentar alguma esperança de alcançar o clube assumidamente corrupto. Mas havia pressa para acabar com a questão, não fosse a coisa complicar-se. E como? Fácil: 2-2 com 10, 15 minutos para jogar, dois penáltis absolutamente escandalosos a favor do nosso clube (com abalroamentos a Cardozo e a Saviola) foram sonegados com a maior das tranquilidades, perante a indiferença (calculada e militante) dos comentadores televisivos, e pior, da nossa parte. Estamos a entrar num caminho perigoso, o de aceitar estas situações sem qualquer reacção. É certo que nós, adeptos, pouco podemos fazer, a não ser denunciar as situações.

Os nossos dirigentes podem. Mas não da forma arcaica e parola como o fazem. Tem de ser com uma estratégia de comunicação inteligente e com classe. Não para obter favores para as nossas cores – nós não somos assim, não festejamos títulos ganhos de forma suja, assobiando para o lado – mas para que acabe de vez a corrupção que nos últimos 20 e muitos que anos vai garantindo títulos ao clube corrupto. E por isso, simplificando, perdemos o título por culpa própria (30% porque ainda assim fizemos o suficiente para ganhar o título) e por culpa das forças ocultas (70%, porque só não vê quem não quer).

Para a próxima época, teremos de entrar em força. Ter uma grande equipa, cada vez melhor. Um grande lateral esquerdo, uma alternativa ao Maxi na ala direita. Um treinador mais astuto, que crie mais alternativas tácticas, que saiba gerir a riqueza do nosso plantel. Apostar claramente no Rodrigo para o lugar de ponta-de-lança, onde seguramente será um dos melhores do mundo – creio que o ciclo do Cardozo acabou, até pela idade.

O texto está extenso, um tanto ou quanto confuso, admito. Resulta da emoção com que é escrito, emoção que vem da paixão pelo meu clube, o maior de todos.

Saudações benfiquistas.

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5 comentários »

  1. Totalmente de acordo com este artigo e pouco há para acrescentar.

    Tenho dúvidas quanto à manutenção do treinador mas se na estrutura dirigente (não tem de ser o Presidente) existir quem lhe exija responsabilidades, lhe dê orientações e contrarie as suas teimosias, quando for necessário, parece-me que JJ deveria continuar e cumprir o contrato. Penso que haveria vantagem nisso.

    Comentar por Carlos — 08/05/2012 @ 01:45

  2. Óptimo post!

    Estou totalmente de acordo com as opiniões que aqui estão escritas.

    Houve, efectivamente, uma fase da época em que pensei que o JJ estava mais refinado, menos gabarolas e mais consciente e moderado. Enganámo-nos… A gestão do plantel foi muito mal feita – um plantel que apresentava muito mais vastas soluções que o anterior.

    As teimosias na questão Emerson ou na questão Saviola são absolutamente ridículas!

    Também me parece que a presença do Carraça tem relegado o Rui Costa para um plano mais do que secundário. Não sei o que lá andam a fazer, nenhum dos dois…
    Parece-me, no entanto, que será estratégia do Rui Costa (eventualmente por ideia do LFV e restante SAD) resguardar-se de todos os “altos e baixos” que a época trouxesse, para que pudesse sair sempre incólume se as coisas dessem para o torto. Desta forma, os bodes expiatórios são o JJ e o LFV, enquanto o Rui Costa não fica beliscado pela má época realizada, podendo sempre (quando os dois primeiros saírem do clube) continuar na estrutura e ser o natural sucessor do LFV…

    A questão dos árbitros demonstra uma falta de competência incrível, da nossa parte. Seria de esperar que, após 30 anos de corrupção e de vermos o nosso clube sistematicamente prejudicado, conseguíssemos tomar posições mais pertinentes e menos ridículas do que as que sistematicamente tomamos. Só somos sistemáticos nas nossas acções contra a arbitragem no que respeita à forma ridícula como reagimos à mesma – só falamos quando perdemos (e, mesmo nessas situações, parecemos mais desesperados do que indignados) e, quando ganhamos e somos prejudicados, ninguém vem dizer nada. Ficam na memória a falta de críticas à arbitragem quando fomos Campeões (com uma falsa sensação de “superioridade”); as críticas desenfreadas quando, no início da época seguinte, estalou o verniz; o apelo ao boicote dos jogos fora; o silêncio relativamente aos prejuízos quando ganhamos; as críticas novamente desenfreadas quando estala de novo o verniz, etc.

    Eu sei que, por vezes, temos é que jogar mais futebol, independentemente das arbitragens mas, bolas, os porcos ganharam este Campeonato sem jogar nadinha e com uma valente ajuda das arbitragens! A questão é: quando nós jogamos mal, somos prejudicados e a derrota é certa, quando eles jogam mal, ganham na mesma, por via de um penalty ou golo fora de jogo… Mesmo jogando mal, eles ganham ajudados – e disso se esquecem muitos benfiquistas que ignoram os prejuízos da arbitragem para criticar treinadores, jogadores e dirigentes!

    Outro grave problema é a falta de capacidade dos técnicos e jogadores em dar o máximo, mesmo com adversidades – no jogo contra o Rio Ave, que deu o título aos porcos, fomos altamente prejudicados, mas nem assim soubemos jogar no máximo da nossa capacidade, para que nos pudessemos vir queixar das arbitragens sem que nos respondessem que não jogámos nada à bola e que nunca merecíamos ter vencido… O mesmo raciocínio pode ser feito em relação aos prejuízos nos jogos contra o Guimarães, Académica e Porcos – fomos gravemente roubados aí e, no seguimento, não fomos capazes de continuar a jogar no máximo das nossas capacidades, por forma a podermos dizer que nos roubaram o campeonato nessas três jornadas, perdendo inúmeros pontos após esses episódios… Obviamente, agora respondem-nos que perdemos o Campeonato porque não jogámos nada no último terço da época, etc…

    Falta estofo, infelizmente…

    Comentar por BLA — 08/05/2012 @ 09:56

  3. Totalmente de acordo, BLA!

    Comentar por ivo980 — 08/05/2012 @ 10:23

  4. O plantel foi bem pensado no início da época.
    Infelizmente, as contratações para a lateral esquerda saíram furadas (as duas) e o Amorim e o Perez nunca foram opção por lesão.

    Para mim, aqui esteve o primeiro equívoco da temporada: quando tivemos oportunidade não fomos buscar um lateral decente, deixámos sair um médio centro sem ir buscar alternativa e libertámos um extremo direito para ir buscar um velocista (que nem velocidade deu à equipa).

    O segundo equívoco chama-se Carlos Martins: por vontade dele ou não, emprestámos um jogador que sem ser titular indiscutível nos foi fundamental nas últimas duas épocas, principalmente nas rectas finais das temporadas. Acredito que ele quisesse jogar regularmente para ir ao Europeu, mas se a época lhe corresse como correram as duas últimas isso não seria um problema. Talvez o Jesus tenha achado que ele não ia pisar a relva porque este ano tinha um super meio-campo. Enganou-se.

    Foi preciso chegar ao final da época, quando já estava tudo decidido, para ver o Jesus a dar minutos a outros jogadores. Na altura em que interessava descansar as pernas dos mais influentes estes jogaram de 4 em 4 dias. Vá-se lá perceber.

    Não me parece que a saída do Jesus seja a solução, mas é óbvio que há coisas por corrigir. A teimosia do treinador é só a mais gritante.

    Comentar por kravi — 15/05/2012 @ 10:27

  5. […] da equipa do Benfica, em algumas fases da época desportiva. (a este respeito, consulte-se também este excelente artigo, do ivo980 neste […]

    Pingback por Balanço de mais um campeonato da mentira (parte 2) « A Luz dos Aboim — 07/06/2012 @ 17:29


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